UM COSMOS EM MIM SÓ

Outro dia, resolvi me fazer uma visita. Tinha tempo que eu orbitava em mim: sondava o terreno, ensaiava o passo, mas não fugia da calçada do sonho. A paisagem de fora parecia suficiente para me compreender. Uma brecha na porta da frente, de onde incidia um feixe de luz e a ideia completa do que mora dentro. Pensava. Acontece que, para quem ambiciona o alto, a entrada é pela janela. Ali, a consciência acena convidativa. Tomei impulso, cravei na mente a tela preta do silêncio, abri o peito – morada do sentimento – e respirei paz. Entrei. De repente, cada átomo do meu corpo era assim uma estrela vibrante, e quanto mais dentro mais percebia um universo a se expandir – feito aquele que abarca os planetas. O que não sou senão parcela de toda a criação? Microscopicamente em proporção, mas em escala infinita – se pela formação e potencialidade? Há algo de mais sublime do que a unidade da obra divina, que em tudo revela a sua origem, a digital de Deus, de modo a nos reconhecermos seus filhos?  Na viagem interior, aciona-se cada parte, ínfima, do corpo físico e o atravessa também alcançando pontos até então intocados, desconhecidos da realidade cotidiana. É tempo de autoconhecimento, de desvelar e de atingir o fio que nos conecta ao Criador. Consciente da sua presença em mim, o desdobramento é uma larga satisfação, vasta paz, descanso e fortaleza. Permanecer neste estado ou voltar a ele sempre que possível é a parte que cabe mais dificultosa. Os atropelos da rotina, os hábitos encrustados, o condicionamento que ditamos a nós, escanteiam as prioridades espirituais. Mas percebi que a frequência da meditação, se não na inteireza que se faz mais “válida”, no simples exercício de sentar e perceber a respiração, torna a prática salutar gradativamente mais natural. Cada célula de que somos feitos é também uma inteligência e a interiorização de um saber específico determina os próximos hábitos. A vida espiritual nos exige treinos e assim como o prazer que se tem ao obter êxito em atividades físicas, a sensação de alegria genuína quando se consegue simplesmente concentrar e perceber a grandeza do Pai é impressionante. Lembrei-me de quando li “Castelo Interior”, da freira carmelita Teresa de Ávila. Ela narra a sua própria empreitada pelos confins da alma em busca do aposento real (local onde Deus habita dentro de nós). Metodologia da viagem: a oração como via de acesso; perseverança para não se estabelecer nos primeiros cômodos, onde as sevandijas – cobras – impõem os valores terrenos, e alçar a gratificante passagem para a morada divina. Na Pérsia do século XIII, Rumi, poeta e místico islâmico entoava cantos e junto aos dervixes girava em torno do próprio eixo (feito os planetas orbitando ao redor do sol, uma dança denominada sama, que promovia o seu encontro o Criador). Tanto tempo para eu perceber que qualquer movimento externo é o resultado de um movimento primeiro, interior. E, de certa forma, tão breve o estalo para a prática da meditação, devoção e contato com o Pai. Já não há mais caminho de volta, a busca, incessante, tem a seta voltada pra dentro, onde sei que ainda flano com a ingenuidade de um aprendiz, infantil, mas sei também que é por ali que devo persistir. Parafraseando Jung: “quem olha pra fora sonha, quem olha pra dentro desperta.”. Shanti! Namastê!

O título do texto é um trecho da linda canção de Gil e Carlos Rennó intitulada “Átimo de pó”. Ouça: https://www.youtube.com/watch?v=apO6w4KATt0

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VOTOS PARA 2015

No detalhe do templo suntuoso os enfeites da Celebração de Luzes e Bênçãos, que marca a transição de um ano a outro. As tradicionais luminárias chinesas compõem o caminho que leva à recepção e, posteriormente, ao salão de celebrações. Muito embora o movimento da rua seja grande, apesar de domingo e véspera de feriado, o silêncio dentro daquele ambiente é um convite à introspecção e à sintonia com a porção divina de cada um. No mural de avisos, alguns detalhes de como se portar durante o ritual e histórias fabulares com a moral oriental a alicerçá-las: “Um mendigo morava no banco de uma praça, em frente ao luxuoso hotel, que ele constantemente admirava. Certa vez, um homem lhe perguntou: – Por que fica a olhar para este hotel tanto tempo? Ele respondeu que era para guardá-lo na memória e que, quando dormia, sonhava estar em um daqueles quartos. O homem, então, lhe ofereceu diárias no hotel e depois de algumas horas, ao passar pela praça, percebeu que o mendigo estava novamente no banco. Questionou o que fazia ali, ao que ele disse: – Quando dormia aqui, sonhava em estar no hotel. Ao estar lá, sonho em dormir neste banco”. A emenda do conto trata do desejo, questão motriz nas religiões oriundas do leste.

Altar do templo Tzong Kwan.

Altar do templo Tzong Kwan.

O ser humano, incansável na necessidade de ter e estar em uma condição diferente da atual, é permanentemente infeliz. O título da história citada nesse conto é “nada é absolutamente necessário” e casa com a proposta do dia, a celebração que trata do início de um novo ciclo, em que se deve buscar a verdadeira felicidade desfazendo-se de hábitos que endossam o egoísmo, o consumo exacerbado, a busca por status. “Na verdade, o Budismo fala muito do presente. Entende o tempo como uma convenção humana. Deve-se perceber cada dia como um ano, cada respiração como um ano, no sentido de viver com inteireza cada instante”, acentua o professor de meditação Marco Defensor de Moura.

A fala informal antecede o início do evento, que acontece na parte superior do templo, onde é preciso deixar os sapatos do lado de fora. Lá dentro, a disposição dos assentos – almofadas marrons que servem de apoio aos joelhos nas reverências – é uniforme. Logo à entrada há dois sinos de bronze, um em cada porta, suspensos próximos ao teto. O altar ocupa extensa parede e buddhas gigantes, dourados, com o semblante sereno – que lhes é característica – recepcionam os devotos. Auxiliares acomodam as pessoas e sinalizam a leitura dos sutras (escritos baseados nas falas de Sidarta Gautama, o Buddha Primordial), e orientam sobre o momento adequado de rojar (pôr-se de joelhos em reverência). Todo o vasto salão, composto de numerosa quantidade de elementos simbólicos, sugere a quem está presente uma completa participação daquele momento de, sobretudo, gratidão pela vida.

No discurso proferido em chinês (e traduzido em português por um auxiliar) a Mestra trata da almejada felicidade e de sorte como válvulas de desejo nestes meses: “É preciso ter compaixão, um comportamento adequado, um pensamento adequado e, automaticamente, se terá sorte na vida.”. Ao final de suas palavras ela deseja que parentes, amigos e todas as pessoas vivam sem sofrimento. Faz parte do roteiro cerimonial a recitação do sutra que tem por nome “o arrependimento dos oitenta e oito buddhas”. Henrique Pires, o tradutor do discurso para o português, explica: “Estes Buddhas eram muito próximos do mundo, com fortes vínculos terrenos, então praticar a recitação e ajoelhar diante do altar (a cada dois versos lidos) compõe também um ritual de purificação”.

Presente entregue ao término da Celebração de Luzes e Bênçãos, do Templo Budista Tzong Kwan.

Presente entregue ao término da Celebração de Luzes e Bênçãos, do Templo Budista Tzong Kwan.

Esta celebração específica, oriunda da China, foi iniciada por monges no intuito de fortalecer, “dar ânimo”, nas palavras de Henrique, à prática dos ensinamentos de Shakyamuni em grupo: “A cerimônia institucionaliza a prática e dá ânimo, incentiva as pessoas a participarem.” O sociólogo Émile Durkheim, em Formas elementares da vida religiosa, pontuava: “O seu primeiro efeito (do rito) é, pois, o de aproximar os indivíduos, de multiplicar os contatos entre eles e de torná-los mais íntimos. (…) Só se reunindo é que a sociedade pode reavivar a percepção, o sentimento que tem de si mesma”. O encontro também é uma oportunidade para emanar votos de paz, harmonia, a todos. Questiono qual a diferença entre desejo e voto, Henrique responde: “O tema é fundamental no Budismo. Há um desejo positivo, no sentido de fazer parte do caminho de iluminação, já que é um primeiro passo para a prática, para a consumação dos ensinamentos de Sidarta Gautama, é a intenção. Mas, diante dos votos, se apequena. Há, por trás do verbete, uma determinação inabalável e uma real vontade de servir, de gerar o bem para si e para os outros”.

Foi de um estágio a outro que migrou Sidarta, há 2600 anos. Príncipe na República dos Shakyas, em Lumbini (Nepal), pertencia à classe social dos guerreiros da Índia. Seu pai o enclausurou no palácio onde se somavam riquezas e tudo o mais que atenda aos interesses terrenos correspondentes ao sucesso e ao prazer. O reflexivo jovem príncipe, no entanto, logo percebeu o aspecto efêmero da felicidade mundana e a condição de sofrimento da vida humana. Este foi o mote para a busca espiritual e uma mudança brusca no modo de vida que o levou a peregrinar pelo país, experimentando a vida simples, a duras penas no princípio, até que encontrasse uma via longe de radicalismos – o chamado Caminho do Meio, e pudesse disseminar o conhecimento apreendido que viria a compor os sutras (lidos nesta ocasião) até atingir o nirvana, a iluminação, abaixo de uma figueira, durante uma noite de lua cheia de primavera aos 35 anos. Os detalhes da jornada do dia em que se tornou Buddha (o desperto) divergem em diferentes fontes, mas fiquemos com o sumo, com os seus ensinamentos – que não destoam.

À época, seus seguidores, ou discípulos, lhe ofertavam lamparinas – que representavam a luz interna, além de simbolicamente tratarem de esclarecimento (ao sinalizarem caminhos em meio à escuridão da ignorância), por isso, após o discurso da Mestra, todos os presentes acendem velas e ofertam ao Buddha, acomodando-as junto aos seus pés, no altar-mor, e com o gesto não só expressam humildade e reverência, mas também reconhecem a importância dos caminhos trilhados por aquela figura notável.

O desfecho da cerimônia é um tradicional almoço vegetariano e que tem por finalidade fortalecer os laços daqueles que detêm os mesmos ideais e compactuam da prática devocional que defendem ser o caminho de iluminação. Apesar da tradição chinesa despontar na arquitetura do prédio e dos rituais, o professor de hapkido e auxiliar no templo, Henrique Pires, afirma que ali não há uma escola específica, mas sim atividades voltadas aos ensinamentos de Buddha em sua visão integral. Antecedendo as comemorações oficiais, naquele filão da Vila Mariana, os votos de um auspicioso ano se fazem no presente.

Site do Templo: http://www.tzongkwan.com.br/

Um Lembrete Vivo da Fé dos Escravos

Visualize a cena: uma imagem de Nossa Senhora do Rosário surge no mar africano. Alguns homens, brancos, se aproximam e tentam retirá-la – sem êxito – das águas. Convocam, então, seus escravos que, detendo tambores revestidos de folha de inhame, reverberam na praia um batuque ritmado e ritual, suplicando proteção à mãe santíssima. Ela atende ao chamado dos negros e chega à areia. Isso é tudo o que se sabe. Não há detalhes sobre data nem local, mas a narrativa descrita se perpetuou pelo tempo garantindo a presença da santa branca nos altares de devoção dos negros até os dias atuais. Em diferentes estados do Brasil ela é cultuada por grupos de congos e moçambiques que remontam o caso da aparição e simbolizam, respectivamente, a abertura de caminhos e proteção. Moçambiqueiros utilizam as cores de Nossa Senhora – o azul e o branco – e os congos vestem-se de rosa e verde, uma referência ao trajeto de galhos e flores que enfeitaram a percussão dos escravos naquela ocasião. Com a disseminação do Cristianismo por todo o globo, Nossa Senhora do Rosário ganhou a adesão de inúmeros fiéis e deu origem a irmandades concebidas por diferentes agremiações étnicas, que muito embora compartilhassem o credo não frequentavam as mesmas igrejas.

“Por que tantos títulos para uma só figura? Todas elas não representam Maria, a mãe de Cristo?” Quem pergunta é José Morelli, o condutor de um cerimonial afro na Igreja do Rosário, situada no bairro paulistano da Penha, em setembro de 2014. Ele mesmo responde: “Historicamente, ela teve de se mostrar em locais distintos, como que a viver a vida de seus filhos, a lhes dizer que pertencia a todos.”. É importante considerar que, ajoelhado diante de Nossa Senhora do Rosário, o fiel não está simplesmente à frente da mãe de Jesus, mas se curva para uma estrutura representativa da simplicidade, da pobreza. É memória afetiva, um chamado da ancestralidade. E são muitos os que o fazem. Passam de cem as pessoas que esgotam os assentos da igreja no domingo caloroso – apesar de inverno. Boa parte delas é negra e ora dirige o olhar a Nossa Senhora do Rosário, ora a São Benedito, mas também não se intimida com os atabaques tocados de forma vibrante na lateral do altar: “O som chega pelo ouvido, vai ao cérebro – que manda ao coração e para o resto do corpo. Se sentir vontade de dançar, dance. Desta forma, nós homenageamos a nossa Mãe”, sugere o ex-padre, agora ministro da palavra. Morelli, hoje casado e com filhos, conseguiu a autorização da Cúria para realizar a celebração que acontece há um ano e reúne, principalmente, moradores e pessoas vinculadas ao centro cultural local.

Cerimonial Afro, Igreja do Rosário, Penha / SP.

José Morelli, Cerimonial Afro na Igreja do Rosário, Penha / SP.

Diferentemente de uma missa comum, já que – pelo fato dele não ser padre – não pode realizar a Consagração, o cerimonial também possui música ao vivo com vozes acompanhadas de atabaques e mais instrumentos de percussão. Há outros elementos que remetem às tradições africanas, como oferendas e vestimentas étnicas dos que participam de forma mais ativa. “Para mim eles representam a resistência. São a continuidade da irmandade que construiu isso aqui”, comenta Morelli, apontando a capela. Morador da Penha desde nascença, ele acompanhou parte da trajetória do lugar. Ao menos sua história recente, de reforma e atividades em prol da valorização e tombamento da Igreja pelo CONDEPHAAT (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico), em 1982.

Quem pode contar mais a respeito do passado secular da construção é o professor Júlio Cesar José Marcelino, integrante do Movimento Cultural Penha: “Havia aqui duas irmandades. A primeira, de 1905, de Nossa Senhora do Rosário, responsável pela construção da capela. Foi extinta nos primórdios da República. A outra, de São Benedito, é de 1950 e também já não existe mais.”. Há suposições para o esfacelamento de ambas: a perda do apoio estatal (já que no período colonial, a igreja era vinculada ao Estado) no caso da primeira, e a ascensão do regime militar e a supervalorização do bairro explicariam o fim da segunda.

Foram anos de degradação e abandono, até que em 2000 a capela sofreu a interferência do CONTRU (Controle de Uso de Imóveis, órgão da Secretaria de Habitação e Desenvolvimento Urbano) – que ameaçou derrubá-la. A população local se organizou para impedir e, com o apoio de algumas empresas da região, promoveu uma reforma que culminou na 1ª Festa do Rosário, em junho de 2002. O evento foi o marco inicial para a realização de outras atividades – como o cerimonial de todo primeiro domingo do mês – criadas para vivificar o espaço e não permitir que ele dê vez a algum condomínio residencial, como tem acontecido com outros espaços na região. “Criamos o grupo de memória, o Conselho, para pensar e organizar eventos que tenham apelo econômico para justificar a existência e a permanência da igreja”, informa Júlio. O Livro de Assentamento, que serve de banco de dados do quebra-cabeça histórico, arquivado na Cúria de São Miguel Paulista, dá indícios da importância do local: “É possível que aqui dentro, conversando contigo, estejamos sobre um cemitério de escravos”, conta o professor. Uma das intenções da formação de irmandades era a possibilidade de enterrarem seus mortos em um local sagrado.

Capela do Rosário

Capela do Rosário, Penha, SP.

A hipótese só poderá se transformar em afirmação com o trabalho arqueológico. Por estes tantos motivos, o movimento cultural do bairro busca patrocínio para um grande projeto de pesquisa e restauro. Mas o caminho é longo, de enfrentamentos e persistência, já que não há auxílio da prefeitura nem sequer da Basílica a quem respondem: “Com a reforma, perdemos o presbitério (espaço que precede o altar-mor) e isso é bastante simbólico. Não temos o clero do nosso lado.”, conta Morelli. Fica claro que, além da taipa das paredes, a argamassa que erigiu a capela há 200 anos foi a resistência. E isso está expresso na arquitetura: a construção, descumprindo uma ordem, dá às costas à Catedral da Sé – que os escravos não podiam frequentar. Daí ser tão representativa a cerimônia do primeiro domingo mensal. Quando o soar do sino convoca o povo às dez horas da manhã, mais que um ritual coletivo, as pessoas estão ali para celebrar e agradecer aos seus antepassados.

“Não é que somos contra o Romano (referência à Igreja Católica Apostólica Romana), mas queremos fazer igual aos nossos ancestrais.”. Sérgio de Oliveira Pereira encabeça o grupo musical e responde pelo repertório. “O objetivo é tocar o coração das pessoas”, conta. A fórmula adotada foi a de criar uma sequência de canções que acarinha a alma dos fiéis através da identificação. Por isso, quando Nossa Senhora da Penha desponta na nave frontal, conduzida ao altar, o que se ouve é Ave Maria no Morro. “Quem mora lá no morro, já vive pertinho do céu” / “E o morro inteiro, no fim do dia, reza uma prece, Ave Maria”, diz a letra de Herivelto Martins. Durante a distribuição da hóstia, a trilha entoada é a de Milton Nascimento: “Ó Deus salve o oratório e a hóstia consagrada”. E para você, Sérgio, o que é fé? “Pra mim, é o equilíbrio entre o visível e o invisível”.

Sérgio, Cerimonial Afro.

Cerimonial Afro, Capela do Rosário, Penha, SP.

Reinventar-se e, ao mesmo tempo, invocar a voz interior que remete ao passado, todos os meses, vestindo a roupa e as tradições é um jeito de fazer-se presente, fazer-se perceber e sentir, sempre necessário a quem esteve à margem da sociedade, um antônimo da evidência, longe da mídia e da pauta de políticas públicas do Estado. Através do rito, o agrupamento se fortalece, promove a manutenção da história e lança no ar as vibrações de uma sintonia comovente – não a de quem queira eternizar as dores –, mas a que sugere uma conexão direta com o invisível, com o mistério e que muitas vezes sustenta a vida.

* Sobre a Igreja do Rosário: http://largodorosario.blogspot.com.br/

* Mais fotos, aqui: http://tinyurl.com/o5uoznu

Cerimonial Afro, Capela do Rosário, Penha, SP.

O Canto da Unidade

É quinta-feira e a cidade de São Paulo palpita entre a revolta e o êxtase de abrigar a abertura de uma Copa do Mundo de Futebol. Manifestações alastram-se pelas principais vias e são poucos os que conseguem chegar à sede Bahá’i, no Jardim América. O muro alto, o jardim discreto que o colore e a câmera de segurança apontando para a calçada escondem a existência de um espaço sagrado lá dentro.  Faz-se necessário atravessar a porta para compreendê-la como portal. Ao adentrá-lo, o fiel despe-se da rotina, como que deixando a roupa suja na bacia, assume um comportamento de nudez diante do que lhe confere o sentido divino.

Ex-Yaran presos no Irã

Dez pessoas compõem o grupo de orações no salão. Estampada na tela branca a foto dos ex-Yaran (líderes bahá’is no Irã) presos há seis anos. A imagem é contemplada com pesar. Afsoon Rabbani, iraniana residente no Brasil há mais de vinte anos, narra a empreitada destes sete indivíduos que, como milhares de perseguidos pelo governo xiita, foram privados da liberdade por professarem a sua fé: “São muitas as notícias que chegam. Idosos que tiveram a aposentadoria suspensa, negócios fechados, entre outras violências, até físicas”. Ela se emociona ao elencar a grave, reincidente e duradoura situação de intolerância religiosa no país natal. Relembra o caso emblemático de Mona Nahmudnizhad, jovem de 18 anos que – junto a outras nove meninas – foi enforcada sob a acusação de “perversão da juventude e da infância” (elas atuavam em um orfanato ministrando aulas com menções aos valores da crença a que pertenciam). Mona pediu aos torturadores que fosse a última vítima – para poder rezar pelas amigas.

O fato se deu em 1983, mas a ressonância da barbárie é atemporal e comove a estudante de enfermagem Caroline Botelho, de 21 anos, presente no encontro. Na escola, em Portugal, ela conheceu a fé bahá’i e iniciou atividades que incluem trabalhos com jovens e crianças. Identifica-se com Mona. Apesar do modesto número de fieis no território luso, predominantemente católico, Caroline alega que a comunidade portuguesa “está a tornar-se cada vez mais visível” por lá. É uma das grandes objetivações da religião fundada por Bahá’u’lláh estender-se pelo globo. Mais que meta, seus seguidores dizem tratar-se de um fim inevitável: “irá crescer em força através de processos que estão em ação”, completa a moça. No Brasil, são em torno de 65 mil adeptos, atuantes em grupos de estudo, reuniões devocionais, aulas para crianças e grupos pré-jovens. O quadrilátero compõe a base de formação de um bahá’i – já que une a experiência religiosa à ação para com a sociedade, primordial na construção do que o profeta persa endossou como fundamental, no século XIX, quando deu início à fé: a unidade da humanidade.

O Instituto Ruhí de Capacitação atua nesse sentido de prospecção. Entidade Bahá’i fundada em 1980, na Colômbia, dispõe de cursos direcionados a jovens e adultos, que ofertam “ferramentas de construção de capacidades para aplicação dos ensinamentos bahá’ís na transformação da sociedade” – conforme ilustra o seu site oficial no Brasil. Foi através da divulgação dos estudos do Ruhí na Associação para o Desenvolvimento Coesivo da Amazônia que o manauara Bruno Carvalho de Oliveira tomou conhecimento da fé. Depois de um curso online sobre a religião, ele sentiu “que o atlântico se estreitou”, aproximando o Amazonas do Irã, e declarou-se bahá’i. Atualmente, mora em São Paulo onde conclui o curso de engenharia de produção. Hospedado na sede paulista, o sobrado no Jardim América, ele cuida das atividades administrativas e divulgação de eventos locais. Junto com o amigo Shervin Naimi deu início a um grupo de pré-jovens com idades entre 12 e 15 anos no bairro Aricanduva, onde aplica o que aprendeu no Instituto, como conta no relato entusiasmado: “É satisfatório saber que podemos ajudá-los a serem pessoas melhores no futuro e que eles próprios podem mudar a comunidade ao seu redor.”.

Figuras Centrais

Assim como no cristianismo, segundo o qual João Batista anunciou a vinda de Jesus, um jovem comerciante da cidade de Shiraz chamado Siyyid ‘Alí-Muhammad precedeu Bahá’u’lláh propondo a reformulação do Islã. Conhecido por “Báb” (porta, em persa), ele trazia um discurso inovador ao levantar questões como a posição subalterna da mulher e enaltecer a educação e o investimento na ciência. Deslocado em um mundo com valores quase medievais,  Báb foi morto em praça pública, mas não sem antes profetizar a vinda do sucessor: “Bem-aventurado aquele que fixa o olhar na Ordem de Bahá’u’lláh e dá graças ao seu Senhor. Pois Ele seguramente manifestar-Se-á.”. Embora tenham sido contemporâneos, Báb e Bahá’u’lláh nunca se viram. Após a execução do primeiro, o fundador da fé bahá’i foi detido sob pena de simpatizar com a religião Babi. Levado a Teerã, recebeu na prisão a revelação divina que lhe dizia ser ele o prometido por Báb. A partir de então, sucederam-se exílios e privações e, em meio a situação adversa, ele compôs toda a obra basilar de sua doutrina. Abdu’l-Bahá, seu primogênito e Shoghi Effendi – neto deste – são os intérpretes autorizados das escrituras sagradas.

Perseguição e violência sempre foram elementos que acompanharam os bahá’is no país iraniano que atualmente encabeça um ranking vergonhoso: é campeão mundial em execuções per capita. Em números absolutos, só perde para a China – que tem 22 vezes o número de seus habitantes, como informa o arquiteto, cineasta e partícipe na Assembleia Local Bahá’i, em São Paulo, Flávio Azm Rassekh: “O caso dos bahá’is no país persa é bem particular, diria até único. Os membros da comunidade não se envolvem em política partidária, se abstêm de qualquer ato violento, estão sempre abertos a receber membros de outras denominações religiosas em seu meio, acreditam na igualdade de direitos entre homens e mulheres e cultivam um sadio respeito pelas instituições estabelecidas no país. Mesmo assim são perseguidos, presos e até mortos. Isso vem acontecendo desde o nascimento dessa religião, no século XIX.” Apesar do apelo internacional com protestos, petições e abaixo-assinados e mesmo prometendo o fim da intolerância religiosa em seu discurso, o atual presidente Hassan Rouhani mantém os pés fincados no passado.

Templos, manifestantes e escrituras

Uma das características mais notáveis da fé bahá’i é a suntuosidade de seus templos. São sete unidades em diferentes países – o oitavo está em construção, no Chile, e será o primeiro da América do Sul. Cada um detém a característica da pátria que o abriga. Muda o traçado, mas há algo em comum: nove portas com a inscrição de grandes religiões levam o fiel ao centro, onde não há altar. Assim, Zaratustra e Jesus têm a mesma importância que Bahá’u’lláh – com a diferença de ter sido este o último manifestante de Deus com passagem pela Terra. “Outros virão, atendendo às demandas da época, num conceito a que chamam de Revelação Divina Progressiva”, explica Maria de Lourdes Carvilhe, membro da Assembleia Espiritual em São Paulo.

Templo Bahá’i em Nova Delhi, na Índia.

Ela, que eventualmente aprecia textos psicografados pelo médium espírita Chico Xavier, conheceu a fé bahá’i através de um médico cuja “postura diante da vida lhe saltou os olhos”. Tendo por receita rotineira a máxima “possui um coração puro, bondoso e radiante”, diz que a experiência da solidariedade para com todos é a sua maior motivação.  “Venho tentando compreender como se vivencia individual e coletivamente cada conceito e princípio encerrado na revelação desta era (referindo-se à última revelação: Bahá’u’lláh) para, a partir daí, contribuir para a construção da nova ordem mundial que contempla essencialmente a unidade do gênero humano”.

A confecção administrativa dos bahá’is compreende em três eixos: a Casa Universal de Justiça (instituição máxima, com nove membros eleitos a cada cinco anos por representantes de bahá’is do mundo todo, sediada na cidade de Haifa, em Israel); as Assembleias Espirituais (com eleições anuais, são responsáveis por organizar atividades e cuidar da divulgação); e os Conselhos (que orientam sobre questões pessoais). Além da obra do fundador, livros de outros autores também são estudados para disseminar valores e rituais como instruções sobre as orações obrigatórias, realizadas diariamente após a ablução (lavagem das mãos e rosto) e com o corpo voltado ao Qiblih (ponto focal onde está o Santuário do manifestante persa). Baha’u’llah também deixou clara a importância dos textos sagrados: “… a fonte primária de poder para a transformação vem da aceitação de sua Palavra – A Palavra de Deus. Refere-se a seus escritos frequentemente como “a palavra criativa”, especialmente porque os seres humanos têm a sensação de serem recriados à medida que mais e mais se expõem a elas. Baha’u’llah claramente afirma que se você quiser ser transformado deve “imergir-se no oceano de minhas palavras”.

Caminho de Paz

Os períodos no Canadá e na Inglaterra aprimoraram o inglês da iraniana Afsoon. Ministrando aulas da língua no Brasil, ela organiza grupos de estudos da fé bahá’i com adolescentes dispostos a treinar o idioma. Desde que chegou a capital paulista, nos anos 1980, ela desenvolve atividades com pessoas desta faixa etária: “Os jovens tem um potencial enorme para criar, é preciso canalizar a energia para algo que seja positivo”.  Como os bahá’is não podem cursar uma faculdade no Irã, durante alguns meses ela fez parte de uma equipe que lecionava cursos pela internet.  Privados do direito de frequentar o ambiente acadêmico, a alternativa é cerceada sempre que descoberta, impedindo a profissionalização: “São gerações sem nenhuma perspectiva. Ao preencherem o formulário na Universidade contando da fé, são postos para fora”. Aqueles que não se declaram, se não por sorte também são vítimas de perseguições – em cidade menores sempre se sabe quem é bahá’i. Pergunto se ela já voltou ao Irã e se tem vontade de fazê-lo. “É um país imprevisível. Gostaria de levar meus filhos, mas até os 38 anos correm o risco de serviço militar. Também não sei como tratam os bahá’is. Posso entrar e não conseguir sair”.

Não há ressentimento, entretanto, da pátria materna. Nas lembranças da infância, surgem fragmentos de afeto. Quando pequena ela, primos, tios, pais e outros familiares passavam o verão no norte, em praias “belíssimas”, ou no entorno do mar Cáspio, considerado o maior lago do planeta. A Revolução Islâmica de 1979 cravou o distanciamento final dos que se mantinham no país e, espalhados pelo mundo, são poucos os membros da família com quem ainda mantém contato – é um cenário comum aos bahá’is que tiveram de recorrer ao exílio. No Brasil ela fundou um núcleo com o ex-marido no bairro Granja Viana, em Carapicuíba, onde reúne amigos para encontros ecumênicos e continua a rezar por seus compatriotas em situações conhecidas através de dezenas de mensagens em persa que lotam, diariamente, a sua conta no gmail. Se a distância lhes impede a comunhão, pequenos grupos – em diversos países – reúnem-se com frequência para entoar orações e compor a teia mental.

Há, nesta iraniana que na feição e no sotaque não renega a origem, engajamento e foco na divulgação dos valores da fé. Quando chegou ao bairro da grande São Paulo não havia um bahá’i. Aos poucos foi construindo grupos de estudos promovendo encontros. Faz lembrar a inovadora empreitada da americana Leonora Armstrong, que em 1921 aportou sozinha no Rio de Janeiro a fim de disseminar o conteúdo de Bahá’ú’llah pela América Latina. Em seu leito de morte, sentenciou: “As mulheres sabem que são as primeiras educadoras da humanidade”. Por isso, como Afsoon, muitas delas compõem trabalhos educativos com crianças, entendendo serem eles a extensão do nosso status atual.

No ano de 1985, em declaração aos povos do mundo, A Casa Universal de Justiça emitiu a seguinte mensagem: “A Grande Paz – para a qual as pessoas de boa vontade orientaram seu coração através dos séculos, acerca da qual inúmeras gerações de profeta e poetas expressarem suas visões, e cuja promessa foi, ao longo das eras, continuamente reafirmar nas escrituras sagradas da humanidade – encontra-se agora, finalmente, ao alcance das nações. Pela primeira vez na história, é agora possível a todos ver o planeta em sua totalidade, com sua miríade de povos diversificados a partir da mesma perspectiva. A paz mundial é não somente possível, mas inevitável. É o próximo estágio da evolução deste planeta – ou, conforme disse o grande pensador, ‘planetização da humanidade’ “.  Apesar dos conflitos, crê-se num período de construção e unidade.  É um processo, no entanto, em que a fé pode ser uma grande aliada. Já anunciava o famoso poeta persa Hafiz: “Não te inquietes com as noites deste mundo. Guarda as minhas palavras: elas são mais raras do que as pérolas”.

Comunidade Bahá’i do Brasil

http://www.bahai.org.br/

No Princípio É O Namastê

Fitando a extensa engrenagem, um maquinário grandioso, diante do invariável tic tac que ecoa pelo castelo e ultrapassa a janela ditando o tempo dentro e fora, o poeta Thomas, em conversa com duas pessoas, diz: “Às vezes acho que o relógio foi a causa da primeira ruptura do homem com a natureza.” A cena é do filme Ponto de Mutação, baseado no clássico livro de mesmo nome do físico austríaco Fritjof Capra. A fala assertiva é apenas o início de uma longa discussão a respeito, entre outras coisas, do pensamento cartesiano (que lê o mundo como se fosse uma máquina e, para estudá-lo, basta desmontar e avaliar cada parte – metáfora do relógio). As reflexões perpassam pela política, pela ciência, pela arte e travam a ardilosa constatação de que, talvez, na tentativa de controlar e dominar a natureza, tenhamos perdido de vista a essência – aquela que nos nivela e liga a todos.

A relação entre tempo e dinheiro, formativa desde os primeiros anos, é crucial para entender a sociedade contemporânea, sobretudo o Ocidente, onde viver é sinônimo de consumir, existir pelo que se acumula. Entretanto, como tudo que extrapola traz consigo uma necessidade oposta, é grande o interesse por técnicas milenares imigradas do Oriente e que propõem interiorização, na tentativa de não ser mais um estrangeiro de si, tais como a meditação e a yoga. Elas são um refúgio a muitas pessoas que objetivam um ordenamento em meio ao caos diário. É o caso de Reinaldo Duarte da Silva, 30 anos. Apesar dos pés fincados no Brasil, desde muito jovem teve os olhos e coração direcionados ao leste. Adolescente, era praticante do johrei (já mencionado aqui no blog, em “O Paraíso é Aqui”) e – de maneira inusitada – tomou conhecimento da Kriya Yoga, difundida pela América através do indiano Paramahansa Yogananda: “Eu tinha ido com a minha tia ao açougue e ali na fila um homem estava lendo Autobiografia de um Iogue, do Paramahansa Yogananda. Demorou um tempo, mas depois de um ano eu comecei a ler este livro e foi um caminho sem volta.” Recebendo avisos, entortou a estrada. “Acasos não existem”, emenda. Nasceu um novo Reinaldo, inclusive, vegetariano.

Autobiografia de um Iogue, edição de 2013.

Autobiografia de um Iogue, edição de 2013.

Autobiografia de um Iogue foi publicado em 1952 e conta a trajetória espiritual do indiano que viajou aos Estados Unidos a fim de disseminar os ensinamentos da Kriya Yoga, técnica científica de meditação*, explicada parcialmente no livro – ao tratar de seus benefícios psicofisiológicos e espirituais. . Com o intuito de preservar o conteúdo original para as futuras gerações, Yogananda fundou uma Ordem Monástica na Self-Realization Fellowship/ Yogoda Satsanga Society Of India, que cuida da disseminação de seus ensinamentos em todo o mundo. Material impresso em diversas línguas pode ser solicitado pelo Correio para a iniciação e monges vêm ao Brasil ao menos uma vez no ano pra esclarecer dúvidas. Muito embora Yogananda cite que o Bhagavad Gita (livro sagrado hindu) se refira à Kriya Yoga, somente no século XIX ela foi reavivada e difundida: Lahiri Mahasaya encontrou-se com o iogue Babaji, no sopé do Himalaia, que o iniciou na técnica. Anos mais tarde, Sri Yukteswar, discípulo de Lahiri  e profundamente interessado pela cultura ocidental, preparava – a pedido de Babaji – um discípulo que enviaria aos Estados Unidos como “embaixador da yoga”. Esse emissário era Yogananda. Os quatro compõem a linhagem de mestres ao lado de Krishna e Jesus (ponte entre Oriente e Ocidente), que figuram nos altares da Self. Autobiografia de um Iogue já foi traduzido para 19 línguas. No Brasil, chegou em 2009 e até o momento foram vendidos cerca de 18 mil exemplares, conforme dados da Omnisciência, sua distribuidora local. São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia são os estados de maior procura.

No verso da edição mais recente, de 2013, desponta uma fala do beatle George Harrison: “Mantenho exemplares espalhados pela casa e constantemente os dou de presente a pessoas que precisam mudar de vida. Eu digo: Leia isto, porque este livro toca o coração de todas as religiões.” Elvis Presley também era visto frequentemente na sede californiana da Self e até mesmo o cantor e compositor Gilberto Gil falou sobre Yogananda em um bate-papo feito recentemente com fãs pelo Twitter: “Admiro a paixão dele pela divindade e a dedicação de sua vida ao espírito superior”, escreveu.  Esta obra, assim como as demais deixadas pelo indiano, promovem o intercâmbio entre os ensinamentos do Bhagavad Gita e os evangelhos cristãos – o que explica a simpatia e identificação por parte de fieis de diferentes designações religiosas: “Assim como Deus une todas as religiões, é a experiência dele como Bem-aventurança que une a consciência dos profetas de todas as religiões.”*

“A Kriya Yoga foi a cereja do bolo do meu caminho espiritual. Um outro nível espiritual. Estou no começo (desde 2009), mas o pouco que sinto já é um oceano. Sei que depende de mim. Os mestres deixaram o material, eu tenho que me aprofundar”, conta Reinaldo. O testemunho da terapeuta ocupacional Sylvia Sóglia, de 52 anos, é vibrante: “Sou estudante da SRF desde janeiro de 2007 e pratico a Kriya Yoga desde outubro de 2008. Posso dizer que a minha vida mudou por completo desde que comecei a estudar e meditar nos ensinamentos de Paramahansa Yogananda. Hoje sou uma pessoa sem ansiedades e medos. Acredito na abundância da generosidade divina e ela me provém com tudo que preciso. Sei que quando passo por momentos difíceis e as dificuldades são oportunidades que estão me sendo dadas para crescimento espiritual, respiro fundo e digo para mim mesma: muita calma nessa hora, medita, medita e medita e as respostas chegam de lugares que eu nem imaginava que poderiam chegar.” Sylvia e Reinaldo frequentam a SRF Vila Madalena, um grupo fundado há 10 anos por devotos que queriam ter um local para meditar perto de suas casas.  “Assim que entrei naquele pequeno templo, meu coração disparou, fiquei muito emocionada, comecei a chorar, pois senti claramente que voltava para casa, meu mestre olhava para mim com seu olhar doce e me dizia: que bom que você chegou!”, conta Sylvia.

A programação do espaço inclui meditações às segundas e quartas, leituras intercaladas de textos e discursos do Yogananda, além de cantos acompanhados de harmônio, tabla (instrumento de percussão típico da Índia), sinos e címbalos. Há também aulas de meditação para crianças e adolescentes em finais de semana específicos: “As técnicas de meditação atuam fortemente no cérebro desenvolvendo redes neurais da região frontal, onde se desenvolvem os pensamentos ligados a nobres ideais e sentimentos positivos. Isso cria uma pré-disposição para ter sua rede neural mais aberta a nobres pensamentos. Além disso acalma, treina a concentração, a perseverança, a paciência e desenvolve um amor natural e maior por todos os seres”, informa Maeve Vida, uma das professoras. Autora de títulos infantis,  também compõe o grupo de fundadores da SRF Vila Madalena.

Duas vezes ao ano o grupo de jovens, do qual Reinaldo faz parte, organiza retiros que detém um formato apropriado para quem quer começar a meditar. No verão, o grupo vai à Praia da Armação, em Santa Catarina. E, no inverno, a Itamonte, Minas Gerais. São diferentes. Ele explica: “A praia é um convite ao passeio, dá vontade de sair, caminhar. Montanha sugere introspecção.” Cânticos de mantras, caminhadas e leituras compõem o roteiro, além de dinâmica: “Na última experiência pedimos a cada participante que escrevesse um problema no papel e colocasse em uma cesta. Depois, cada um sorteava um papel e, a partir do que lia, ia buscar respostas e acolhimento nos livros do Yogananda. Foi super positivo”.

Retiro da Armação, Santa Catarina, janeiro 2014. Arquivo pessoal do Reinaldo Duarte.

Retiro da Armação, Santa Catarina, janeiro 2014. Arquivo pessoal do Reinaldo Duarte.

 “A experiência de retirar-se da atividade incessante para cultivar uma consciência mais profunda de Deus fará com que Ele o reanime na força e lhe traga paz e felicidade duradouras”, diz a mensagem encorajadora no livreto “Deus em Primeiro Lugar – Um Companheiro de Bolso Para Um Devoto em Retiro.” Aquietar também é de suma importância para a plenitude da vivência. Gandhi, mesmo, determinou que durante um dia na semana não proferiria uma palavra. Reinaldo conta de seu primeiro retiro no escuro da fala: “Quando eu podia falar, fiquei cansado”.

A SRF, em todas as suas publicações, através dos ensinamentos de Yogananda, sinaliza caminhos de paz, mas deixa claro tratar-se a evolução de um projeto individual. Faz às vezes de trampolim, no entanto cabe a cada um empregar o impulso e mergulhar em seu íntimo promovendo a mudança. Reverentes aos grandes expoentes das religiões, vide trecho da prece: “Pai Celestial, Mãe, Amigo, Amado Deus, Jesus Cristo, Sri Krishna , Mahavatar Babaji, Lahiri Masaya, Swami Sri Yukteswar, Amado Guru Paramahansa Yogananda, Santos de todas as Religiões, nós reverenciamos a todos”, comprazem-se com aqueles que carregam o seu Deus internamente, cumprimentando-os com um luminoso Namastê (curvo-me perante ti). A proposta é a de qualificar a existência. Desarraigar o ego e o orgulho e perceber o inefável, esvaziar-se do desnecessário. Fazer valer a substância. E, para tanto, sempre que possível, meditar. Silenciar.

 * os trechos sinalizados com * foram extraídos do livro Autobiografia de um Iogue, edição de 2013.

Sobre a Self-Realization Fellowship:

www.yogananda-srf.org

Retiros da SRF no Brasil:

Retiro Armação/SC: www.retiroarmacao-srf.com

Retiro de Valença/BA: www.retirosrfvalenca.com.br

Retiro itamonte/MG:  www.retiroitamonte.com.br

Retiro de Brasília/DF: www.retiroyogananda.com

Para adquirir os livros originais de Paramahansa Yogananda, publicados pela SRF:

Livraria Omnisciência: www.omnisciencia.com

Uma Comunidade Incomum

O primeiro registro de que se tem notícia dela é de 1891 – quando foi criada como alternativa para ligar a região central à Avenida Paulista, área de chácaras que – mais tarde – constituiria um importante polo econômico. Menos íngreme que a rua da Consolação, sua paralela, a Augusta passou a ser uma opção de trajeto a ser feito a pé, a cavalo ou sobre rodas. Era um dos roteiros da elite paulistana por conter lojas de grife. Nos anos 1930, com a grande circulação desta classe, tornou-se alvo de violência, afugentou clientes e deu origem a uma nova fase: imóveis foram desvalorizados e a rua passou a reunir casas de prostituição. Para baratear o custo dos aluguéis de apartamentos residenciais, as construções mantinham o comércio na parte térrea, mas agora com o novo perfil. Por permanecer ainda como um braço fundamental na ligação entre regiões de negócios, com o trânsito de muitos empresários, sustentou-se desse tipo de mercado até que, nos anos 2000, com o surgimento de bares sofisticados e casas noturnas, atraiu também jovens da classe média, tornando-se parte da cena cultural da metrópole.

Fevereiro de 2014. Uma semana antes da maior festa popular do país, o Carnaval, a rua é ocupada por uma multidão que segue o bloco Acadêmicos do Baixo Augusta na quadra que se aproxima da Praça Roosevelt. Apesar do alvoroço externo, no primeiro andar do Hotel Linson, um grupo de jovens reúne-se em uma sala escura para assistir e refletir a partir de uma interpretação teológica sobre um filme do renomado cineasta sueco Ingmar Bergman. A tela em branco e preto é mais um dos contrastes entre o que se passa do lado de fora e o lado de dentro.  Eles fazem parte da Comunidade Capital Augusta, um grupo protestante que estuda, de forma independente, a Bíblia. Em março passado, comemoraram cinco anos de existência, reunindo boas histórias e um público que, em sua maioria, é circulante: “A partir do momento que pessoas entram e saem, tudo muda. Cada pessoa é um mundo inteiro de habilidades e dificuldades. Tivemos que aprender a lidar diariamente com as demandas e bagagens que cada um trazia”, conta um dos fundadores do grupo, o professor de inglês Junior Souza.

Júnior - Sala Lugano, Hotel Linson

Junior Souza – Sala Lugano, Hotel Linson

Aos 39 anos e algumas tatuagens estampadas pelo corpo, o líder da comunidade é o exemplo claro de que é preciso fugir dos estereótipos. Com o lema “é proibido pessoas perfeitas” e uma caveira estampada em camisetas pretas com o selo da Capital (A caveira é um símbolo de igualdade: internamente, todos os humanos são iguais) juntam uma galera descolada – a faixa etária média varia entre 25 e 35 anos – aos domingos para o culto ou sessão de cinema, com o comprometimento do estudo: “Ao mesmo tempo que sabemos que não temos ‘cara de crente’, temos muito mais responsabilidade em agir como cristãos. Logo, desde sempre, um dos nossos focos é ser uma comunidade extremamente bíblica e cristocêntrica. Isso não muda”, emenda Júnior.

Isabel – Cine Teologia – Foto: Daniel Vieira

Antes de “O Sétimo Selo” dar às caras na tela branca, eles se espaçam pela sala do hotel tradicional, sentados no chão em conversas descontraídas ao mesmo tempo em que recepcionam os conhecidos e os visitantes novos. O Cine Teologia é um projeto de Isabel Cristina Oshima, chamada por todos de Mestre. A paranaense que constituiu família em São Paulo relembra a ideia de trabalhar a reflexão através do cinema: “Ao perceber que boa parte das pessoas não consegue alcançar o entendimento amplo de certos conceitos teológicos, por serem complexos demais, abstratos demais, inatingíveis demais… decidi fazer uma experiência na qual mesclava o conceito tão temido com um filme que pudesse ilustrar e ampliar a discussão sobre o mesmo.” Contando com a expertise de professora universitária ela escolhe longas que, de alguma forma, tratam de vivências cruciais do ser humano e depois os destrincha, dando margem à participação coletiva.

 Produzido no pós-guerra, o filme de Bergman retrata a história de um cavaleiro que sugere à morte, personificada com vestes e feição assustadoras, uma partida de xadrez. O término da vida humana e a fé são os temas centrais, já que o título faz referência ao conteúdo bíblico do Apocalipse: o relato do fim dos tempos depois de aberto o último selo de um livro que está sob a posse de Deus. Artistas itinerantes e a população de uma cidade temente à peste compõem o elenco do longa, repleto de simbologias que, depois de um apanhado histórico, são apresentadas por Isabel, rompendo o silêncio de uma hora e trinta e sete minutos por parte dos expectadores. A situação precária que levou a esta doença epidêmica no século XIV é retratada pelo cineasta em um ambiente de sujeira e descaso. Alguém remete a situação da cidade à própria rua Augusta. Como lição de casa, ela sugere que cada um reflita sobre o relacionamento que tem com Deus, lembrando a cena em que pessoas se autoflagelavam buscando a remissão dos pecados. “Na época, Deus era responsável por todo o mal que existia. Hoje em dia, nós também o responsabilizamos por tudo de ruim que nos acontece?”

A espinha dorsal da Capital é constituída por oito integrantes, que se revezam nos cultos. Os participantes aparecem, principalmente, por indicação de alguém que já frequentou os estudos – seja no próprio hotel ou nos Grupos Pequenos (reuniões em locais públicos de São Paulo, principalmente no Centro Cultural Vergueiro, na região do Paraíso). Há quem chegue também depois de visualizar os avisos nas redes sociais: “Algumas pessoas até mandam mensagem pela página perguntando quando vai ser a próxima reunião ou algo do tipo, mas nem sempre aparecem depois… às vezes acabam aparecendo meses depois da mensagem…. é meio bagunçado! Mas isso são visitantes… pra um visitante se tornar um participante, aí é mais uma questão de desenvolver relacionamentos dentro da comunidade, seja nos domingos ou nos grupos de estudo. É muito mais do que aparecer lá todo o domingo. A gente precisa se conhecer para fazer parte…Faz sentido?”, diz Guilherme Menga. Ele é quem administra os perfis do grupo nas redes sociais. Uma de suas tarefas é informar datas e locais das atividades, além de gravar alguns dos cultos realizados e publicá-los em formato de podcast. Apesar da facilidade virtual, o contato pessoal – e isso inclui conhecer as pessoas, compartilhar problemas e conquistas – é norma na Comunidade, como ficou evidente na fala de Menga.

Um bom exemplo disso é o catarinense Filipe Christian Pickart. Depois de conhecê-los pela web ainda em seu estado natal, ele os visitou e passou a frequentar as atividades continuamente: “Me identifiquei com a Capital por algumas razões: por ser uma igreja que valoriza os relacionamentos, por incentivar a busca por um relacionamento pessoal com Deus e por não ser um mercado da fé.”. Depois de Bergman, ele se despediu temporariamente do grupo. Os estudos que realizava em São Paulo foram concluídos. Uma prece direcionada por Isabel marcou sua partida e condiz com o acolhimento pregado pelo grupo. Na página atualizada do Facebook figura a homenagem da Comunidade, a Ane, uma integrante que faleceu em janeiro deste ano. Endossa-se a importância do rito de passagem para fortalecê-los: “Hoje a Capital Augusta se tornou uma igreja de verdade. Durante esses quase cinco anos de caminhada celebramos alguns casamentos, apresentamos uma criança e hoje passamos pela experiência de celebrar um culto fúnebre.” Ane tinha 24 anos quando foi diagnosticada – pela segunda vez – com câncer. A fala escolhida para destaque, na rede social, é representativa: “Sabe aquele sorvete enorme que você compra no calor e que tá tão cheio que até começa a escorrer pelas beiradas? A alegria de Deus dentro de mim é muito maior, mais gostosa e mais doce que isso”.

Pelos relacionamentos humanos, com traços característicos da faixa etária, porém remontando à época da gênese do Cristianismo, quando se pregava e refletia os ensinamentos de Jesus em pequenos grupos, a Comunidade Capital Augusta segue o seu curso com o que lhe é peculiar, fincada nos preceitos bíblicos e desprendida dos roteiros geográficos (eventualmente, por não conseguirem o montante do aluguel semanal no Linson, de 400 reais, tem de se reunir em locais públicos). A preferência é pela rua Augusta, claro. Na contramão do que a maioria dos passantes ali procura, mas com a convicção de que é lá que, nas palavras de Júnior, haveria de se plantar uma igreja.

Fonte: “A Rua Apropriada”, disponível em: http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/16/16136/tde-12082013-101209/fr.php

Facebook e Twitter: Capital Augusta

Bolos de aniversário de 05 anos da Capital Augusta – Foto: página da Comunidade no facebook.

O Paraíso É Aqui

Cresce disforme o broto de feijão e até que se acentue o formato característico, acenando o primeiro grão, são dias de espera e cuidados. O resultado vistoso no seio da terra é a conquista de alguém que um dia aparou com as mãos aquele terreno e permitiu o desenvolvimento da semente. Ao agricultor comum, este fosso, espécie de corredor de ar, tem o nome de cova, mas na agricultura natural, um dos pilares da fé messiânica, o termo foi substituído por berço. Explica o monitor Juliano dos Santos, responsável por oficinas na área, dentro do Solo Sagrado (espaço da Igreja Messiânica), que a palavra é também adubo e a escolha pela expressão inadequada pode prejudicar o crescimento de qualquer planta. Debruçado sobre o solo, um praticante da técnica, fundada pelo japonês Mokiti Okada no século XIX, reaproveita o que a própria natureza oferta para tornar fértil a terra e investe mais que uma porção de sementes, acresce gratidão ao insumo. A postura em si, imitando reverência, é a expressão mais clara do elo firmado entre o homem e seu habitat. “Quando apanho uma folha seca caída no chão, sinto nela a indiscutível Lei do Ciclo da Vida”, discorreu Meishu Sama, ou Senhor da Luz (Mokiti Okada), no outono nipônico de 1931.

Enquanto todo um sistema caminha para, cada vez mais, consolidar a utilização de agrotóxicos em seus alimentos, o que levou – inclusive – a Fundação Oswaldo Cruz a divulgar, recentemente, carta aberta repugnando o respaldo legal que permite o uso excessivo de substâncias nocivas sem o devido cuidado nas plantações, o messiânico trabalha para disseminar caminhos alternativos ao cultivo de alimentos e temperos, possíveis de executar em casa. O reaproveitamento do solo, com o que lhe é inerente, faz cumprir a sua missão enquanto base propulsora de outras formas de vida que asseguram a continuidade da existência, em processo cíclico, como na fala poética descrita anteriormente. É também um reconhecimento de que há entre todos os seres uma ligação inevitável e, portanto, faz-se necessário pensar a experiência no planeta de uma forma ampla – o que implica, inclusive, o agradecimento àqueles que o precederam e garantiram as refeições responsáveis pelo seu desenvolvimento enquanto indivíduo. “Sou filho de agricultores. Se for ver, todo mundo teve – em algum momento – um familiar que trabalhou na terra”, reflete Juliano. Cultuar o passado é um traço característico da tradição oriental.

Margarida Maria Saú

“Pensar no alimento que supre todas as necessidades me encanta”, conta Margarida Maria Saú. A pernambucana já atuou em hortas comunitárias ensinando a produzir adubos naturais e a plantar com êxito: “Por que o veneno se o alimento vai pra dentro de mim?”, completa ao constatar a lógica que contraria a produção massiva das grandes empresas alimentícias. Ela conheceu a fé messiânica em Curitiba, quando trabalhava como doméstica. Recebeu o johrei (método de canalização de energia espiritual para purificação do espírito), e durante o culto de gratidão decidiu: “essa vai ser a minha religião!”. Passaram-se dez anos, mas ainda com frescor na memória se recorda de Aline, a moça que impôs as mãos à sua frente no Johrei Center (espaço dedicado à prática) na capital paranaense. “Perguntei a cor dos olhos dela, enquanto me enviava energias, e me disse que eram castanhos, mas eu respondi que eram diferentes: Eles tem uma luz!”. A frequência no local a levou a conhecer o Solo Sagrado, em São Paulo, onde esteve junto de uma caravana.

Área de refúgio, Solo Sagrado

Fincado no bairro de Parelheiros, vizinho à represa de Guarapiranga, o Solo é o que os messiânicos chamam de protótipo de paraíso na Terra. Como este, há outros quatro no mundo (três no Japão e um na Tailândia), além de um em construção na África. Meishu Sama determinou o belo como valor fundamental à vida. Entendia por caminho de elevação espiritual a contemplação da beleza. Por isso, passou adiante o projeto que se consolidou de forma satisfatória nos cinco territórios. Na metrópole brasileira, são – aproximadamente – 30 mil visitantes por mês, que incluem devotos de outras religiões. “É um lugar para que as pessoas se sintam bem. Já recebemos, inclusive, líderes de outras igrejas aqui para eventos ecumênicos”, informa o reverendo e vice-diretor João Cesar Gonzalez. A área, de 327.500 metros quadrados, compreende templo, vastos jardins e espaços de refúgio – com bancos e quiosques, além de centro cultural, refeitório, lanchonete e acomodações para quem vem de fora participar de alguma atividade.

Muito embora a aquisição do terreno tenha ocorrido em 1974, apenas vinte e um anos depois houve a inauguração. A construção, por se tratar de um projeto de grandes proporções e deter o caráter colaborativo, levou meses para se consolidar: “Após os cultos, membros vinham para cá trabalhar, preparar um jardim, com muita dedicação”, lembra o ministro Jakson Araújo. Além da característica monumental, o complexo é rico em simbologias. O templo possui 16 colunas, na cultura japonesa representadas pelas direções do mundo. Elas estão ligadas por um anel cuja explicação se dá na união dos povos. Para se chegar a este espaço, que fica no alto, é preciso subir a escadaria do arco-íris, com floreiras que remontam as cores do facho luminoso. A ideia do santuário, de interação com a natureza, é facilmente perceptível já que as paredes e o teto são abertos. No altar, três referências de devoção: ao centro, Deus; à direita, um sacrário destinado ao fundador da Igreja, Mokiti Okada, e à esquerda o espaço dedicado aos ancestrais. Três palmas compõem a ritualística (referência aos planos: Deus, espiritual e físico), além de preces em japonês e em português. O Pai Nosso faz parte, Margarida? “Não, faço porque estou acostumada, acho importante.”.

Templo e escadaria do arco-íris, Solo Sagrado.

Para assegurar a infraestrutura, são mais de 100 funcionários: 40 jardineiros (todos realizaram um treinamento interno, para efetuar a poda adequada) e 75 profissionais na área administrativa. Há, ainda, o plantio e cultivo de alimentos orgânicos vendidos através da rede Korin e trabalhos de compostagem de avançado nível tecnológico. “Recebemos em torno de 15 escolas e 15 entidades voltadas à terceira idade, por mês, para realizarem o roteiro ambiental, em que tratamos de coleta seletiva, captação de água pluvial e energia solar. As crianças passam por oficinas e a parte religiosa é mencionada na medida em que abordamos o respeito à natureza.”, explica o ministro da Agricultura Natural José Carlos dos Santos. Desta forma, o espaço congrega os três pilares fundamentais da fé messiânica: a Agricultura Natural, o johrei e o belo, caminhos que levam à evolução espiritual, segundo Meishu Sama. Não foi à toa que Margarida, entre as três cidades que morou, escolheu ficar em São Paulo, no bairro de Parelheiros, um dos mais violentos da capital: “O Solo pra mim é um lugar muito bom, que faz bem, onde eu sinto paz”. A tranquilidade, em certos casos, não advém de referências espaciais. As fronteiras do bem-estar podem ser mais íntimas que supomos. Como ela, contrariando o componente geográfico, o macuco – ave em extinção, presente na região nordeste do Brasil, também ali encontra refúgio e é mais um elemento a formar este modelo de beleza e harmonia que remete à ideia de perfeição.

 http://www.solosagrado.org.br/index.html